
As primeiras mudanças no meu dia-a-dia (ainda no Brasil), estão ocorrendo. A primeira e maior de todas, deixei meu estágio no Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano, e assim meu cotidiano de números, preenchimento e análise de dados se transformou de uma hora para outra. Foi saindo de lá que eu percebi o quanto tinha aprendido ali, e o quanto trabalhar me fez bem. Além de ter uma rotina, que me obrigava levantar da cama mesmo se não houvesse aula. Mudei muito dos meu hábitos pequeno-burgueses através dessa experiência.
Para além disso, o contato com os problemas de meus colegas, em geral pessoas extraordinárias, servidores públicos e burocrátas dos mais diversos escalões. aprendi ainda nessa caminhada, que o Estado burguês, por mais cruel que seja, é feito e pensado por seres humanos de valores dotados de alteridade. Seriam talvez vítimas, atores dessa racionalização muito bem descrita por Max Weber.
Nesses dias ainda, terminei de ler um dos melhores livros que já li, e ao mesmo tempo um dos mais longos. A obra de Gabriel Garcia Marques, Cién años de soledad. Uma novela latinoamericana que de forma genial descreve a ascendência e o declínio de um legado familiar. O caráter fantástico da obra, as descrições e comparações a coisas que só existem no imaginário humano, me permitiu uma outra perspectiva sobre a compreensão do mundo. Algo que talvez os marxistas e tampouco Marx(apesar de na sua maioria serem autores muito completos), tenham percebido, ou tenham dado menor importância. Esse valor de troca imaginário ou a importância que os símbolos possuem no nosso dia-a-dia, se mostra para mim uma chave do entendimento dos comportamentos e ações coletivas e individuais da sociedade.
Enquanto alguns creêm na lei ou na idéia de justiça que está imbricada nos artigos e incisos de um código, outros pelos mesmos valores, justificam ações completamente contrárias em termos materiais. Há ainda aqueles que se valem desses mesmos valores para justificar um planejamento urbano e social técnico, supostamente desprovido de qualquer carga ideológica.
Compreender os sentidos das ações é tal qual Cortázar, desvendar quem são os cronópios e famas de uma dada situação. Sem deixar de problematizar os nossos próprios pressupostos é claro. Depois do surgimento da sociologia reflexiva de Pierre Bourdieu (influenciado de certa forma pela filosofia da linguagem) a localização da fala se tornou algo necessário. Nós, pensadores do sul (e eu sem modéstia "acho" que posso me afirmar nesse grupo), não precisamos de maneira alguma, contrariando Boaventura de Souza Santos, renunciar aos paradigmas modernos. Estes que por bem ou por mal, ainda delimitam e modelam nosso pensamento. Devemos sim, escancarar os sentidos de nossas análises e dialogar com outras racionalidades e valorizar novas formas de pensamento. Do contrário, acabaremos como a cidade dos espelhismos de Garcia Marques, afundados pela mesma estirpe que nos criou e relegados ao destino cantado por sabedorias ciganas que considerávamos inúteis, exóticas ou irrelevantes.
