quarta-feira, 21 de julho de 2010

Primeiras quebras, novas e velhas perspectivas


As primeiras mudanças no meu dia-a-dia (ainda no Brasil), estão ocorrendo. A primeira e maior de todas, deixei meu estágio no Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano, e assim meu cotidiano de números, preenchimento e análise de dados se transformou de uma hora para outra. Foi saindo de lá que eu percebi o quanto tinha aprendido ali, e o quanto trabalhar me fez bem. Além de ter uma rotina, que me obrigava levantar da cama mesmo se não houvesse aula. Mudei muito dos meu hábitos pequeno-burgueses através dessa experiência.

Para além disso, o contato com os problemas de meus colegas, em geral pessoas extraordinárias, servidores públicos e burocrátas dos mais diversos escalões. aprendi ainda nessa caminhada, que o Estado burguês, por mais cruel que seja, é feito e pensado por seres humanos de valores dotados de alteridade. Seriam talvez vítimas, atores dessa racionalização muito bem descrita por Max Weber.


Nesses dias ainda, terminei de ler um dos melhores livros que já li, e ao mesmo tempo um dos mais longos. A obra de Gabriel Garcia Marques, Cién años de soledad. Uma novela latinoamericana que de forma genial descreve a ascendência e o declínio de um legado familiar. O caráter fantástico da obra, as descrições e comparações a coisas que só existem no imaginário humano, me permitiu uma outra perspectiva sobre a compreensão do mundo. Algo que talvez os marxistas e tampouco Marx(apesar de na sua maioria serem autores muito completos), tenham percebido, ou tenham dado menor importância. Esse valor de troca imaginário ou a importância que os símbolos possuem no nosso dia-a-dia, se mostra para mim uma chave do entendimento dos comportamentos e ações coletivas e individuais da sociedade.

Enquanto alguns creêm na lei ou na idéia de justiça que está imbricada nos artigos e incisos de um código, outros pelos mesmos valores, justificam ações completamente contrárias em termos materiais. Há ainda aqueles que se valem desses mesmos valores para justificar um planejamento urbano e social técnico, supostamente desprovido de qualquer carga ideológica.


Compreender os sentidos das ações é tal qual Cortázar, desvendar quem são os cronópios e famas de uma dada situação. Sem deixar de problematizar os nossos próprios pressupostos é claro. Depois do surgimento da sociologia reflexiva de Pierre Bourdieu (influenciado de certa forma pela filosofia da linguagem) a localização da fala se tornou algo necessário. Nós, pensadores do sul (e eu sem modéstia "acho" que posso me afirmar nesse grupo), não precisamos de maneira alguma, contrariando Boaventura de Souza Santos, renunciar aos paradigmas modernos. Estes que por bem ou por mal, ainda delimitam e modelam nosso pensamento. Devemos sim, escancarar os sentidos de nossas análises e dialogar com outras racionalidades e valorizar novas formas de pensamento. Do contrário, acabaremos como a cidade dos espelhismos de Garcia Marques, afundados pela mesma estirpe que nos criou e relegados ao destino cantado por sabedorias ciganas que considerávamos inúteis, exóticas ou irrelevantes.

sábado, 17 de julho de 2010

Sobre as possibilidades do futuro e as mudanças no meu presente


Algumas mudanças no blog foram feitas de acordo com os planos e passos que eu me fixo no momento atual. O mês de junho foi ao mesmo tempo muito corrido e muito produtivo, enquanto sentei por duas semanas para escrever artigos e trabalhos para a faculdade, pensava no programa de intercâmbio, o qual eu tinha me inscrito quais seriam as possibilidades e consequências de eu ser selecionado para tal programa.

Daqui a algumas semanas estarei escrevendo da cidadde de San Miguel de Tucumán no norte da Argentina, e tentarei contar neste espaço um pouco do meu dia-a-dia lá. Apesar de ter mais motivos para ficar do que para ir, seu que essa é uma oportunidade única. Como brasileiro, latino-americano, a inserção numa cidade situada em um país hispanoparlante, numa região em que já habitaram povos quechuas é extremamente importante. Estando lá procurarei também conhecer países que estão próximos como a Bolívia e o Chile.


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Nos últimos dias tenho começado a preparação para essa viagem, tanto psicologica quanto espiritual e física. Tenho procurado estar com meus amigos e minha namorada, ainda que isso às vezes me doa, sei que um semestre pode passar muito rápido. Alguns dos meus melhores amigos ainda estão voltando de suas viagens e o tempo será pouco para vê-los. Sinto também que essa viagem tão esperada por mim durante muito tempo, me apresentará um novo mundo, ou o mesmo mundo do qual faço parte mas o qual a minha visão ainda não alcança.

A possibilidade de viver em um lugar onde quase não conheço ninguém é ao mesmo tempo um desejo e um desafio para mim. Não sei se bem ou mal, sei sim, que isso me fará diferente.
Na foto: A sede do Governo da Provincia de Tucumán.

sábado, 3 de julho de 2010

A copa do mundo da Fifa

Em meio a trabalhos e jogos da copa do mundo, algumas coisas me passam na cabeça e levam a algumas conclusões. A lastimável derrota da seleção brasileira me deixou realmente atordoado, mas ainda assim tinham vezes que parecia completamente previsível o desfecho real dessa história. Uma seleção sem brilho, da qual os jornalistas (pra garantir o ganha-pão) não perdiam a oportunidade de exaltar e ao mesmo tempo entrar em choque com um "Michael Dunga", sobretudo os exclusivos da globo. A seleção eficiente, sim eficiente tinha mais "atores" que "agentes" no sentido social, e mais "atores" que jogadores no sentido prático. A cada 5 minutos um jogador estava fingindo que jogava na tevê, pra vender algum produto. E em outros dias, eram 90 minutos de puro fingimento.

Não estou menosprezando o trabalho feito por essas pessoas, mas para mim foi realmente decepcionante ver a palavra "comprometimento"perder o seu valor. Fora isso, a copa do mundo da FIFA, é mais a copa das marcas, nike, adidas, puma, mcdonalds, coca-cola, hyundai ...fora os patrocinadores oficiais das seleções. Alguns , como eu mesmo, se iludem com a perspectiva de vitória de países da peiriferia do capitalismo, e projetam uma suposta vitória dos oprimidos da história. E no fim se desiludem com as supresas inevitáveis das partidas de futebol.

Um dia desses eu fui abordado por um rapaz, que com o fim da campanha brasileira tinha gasto a toa o último dinheiro que tinha para tentar fazer mais dinheiro, um ex-presidiário tentando se "reintegrar a sociedade".
Esses são os panoramas, de uma copa que nega o racismo pra poder se alimentar e alimentar um sistema que é muito mais onipresente do que nós imaginamos.
Gostar de futebol não pode significar nos entregarmos às falacias de um mundo completamente anti-desportivo...