terça-feira, 16 de novembro de 2010

Vou levando assim...


Nos últimos dias, ou último fim de semana, me forcei a me separar por um tempo dos bons amigos tucumanos e internacionais do intercâmbio, para conhecer a muito comentada cidadade de Cafayate.
Diversão garantida, e paisagens inacreditáveis eram o que me esperavam. Fui muito bem acompanhado pelo meu irmão Fernandão ou Fernet, e pela galega Paula (sim da Galícia, onde se fala "fame" quando se tem fome...) partindo na sexta pela manhã, chegamos a pequena e turística cidade na hora do almoço. O outro Fernando, dono do Hostel Road Runners, nos recebeu de maneira muito "zen" como a energia do local. Um bom local pra quem gosta de não só beber para um transcender induzido...
Seguindo as indicações dos nossos amigos, conversamos com Fernando do Hostel e organizamos o passeio do dia seguinte, uma descida de 50 km pela Quebrada de las Conchas, desde a Garganta del diablo. O passeio, valeu toda a viagem, porque desde o ônibus quebrado (pela situação em que ficou a porta do bagageiro que o motorista esqueceu aberta, e acabou batendo num poste) até a reta final sob um sol fortíssimo, foram muitas as emoções.
Partimos as 7 da manhã da Garganta del diablo, e desde aí , foram várias as paradas no caminho, tanto para descansar como para apreciar a vista, e que vistas!!
O ritmo nosso não foi muito rápido e por isso no final acabamos tomando um sol de meio dia no meio do desértico Valle de los Calchaquíes. E pra completar o pneu da galeguinha furou e tivemos que mostrar que "quem sabe faz ao vivo" ...
Quase mortos, e com marcas de caminhoneiros (camiseta + sol = marquinha sexy), durmimos a maior siesta desde o início do intercambio (6 horas ininterruptas). Á noite provamos do famoso pollo al disco, que parece uma paella, mas de frango. Acompanhado da gostosa cerveja negra Salta.
A viagem nos rendeu bons amigos (um casal de franceses muito loucos) e várias risadas, e mais uma vez o norte argentino me surpreendeu com o seu povo e a sua paisagem únicos. Voltar foi difícil, agora a corrida é para terminar as provas da Universidade Nacional de Tucumán, para partir até a Bolívia e quem sabe o Perú e o Chile...

Saudações Tucumanas!

Obs: Na imagem, eu e Fernet, na parada das Tres Cruces.

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Eleições do Brasil em Tucumán



Comentário de um futuro cientista social, e um prognóstico correto. Fora a expressão de ressaca.

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Enquanto isso no Brasil...

Uma semaninha numa curiosa cidade chamada Curitiba. Palco das mais variadas demonstrações de conservadorismo do país. Nesse sentido, pode-se dizer que essa cidade é irmã de Tucumán, com a diferença que não se teve protagonismo nenhum para a independência do Brasil. Ainda assim ambas são cidades provincianas politicamente falando, e pouco acostumadas ao cambio natural do jogo político.

"Extrañando" todos e todas que conheci em Tucumán, me sinto um antropólogo que ao voltar de um trabalho etnográfico feito em uma sociedade distinta da sua, se percebe estranhando (no sentido do português) tudo aquilo que vive, sobretudo como se vive. Uma experiência genial. O Brasil vive um momento tenso, entre a ruptura e a continuidade. A marcada ruptura com a elite, o estabelecimento de um grupo estadista forte politicamente e popularmente. A valorização das políticas sociais, a recuperação da economia, o protagonismo ante conflitos internacionais foram as caracteristicas que marcaram os primeiros 8 anos dessa ruptura.
Chamo de ruptura, porque o poder durante muito tempo (ou quase sempre) esteve nas mãos das mesmas elites. Empresários, latifundiários, e grande parte da classe média (pseudo-liberal) se organizam nesse momento para brecar a ruptura. Aliados a grupos mediáticos que se utilizam de argumentos irracionais e de pouca lógica, são raros os momentos em que o debate é realmente político.

Ao meu ver, a sobrevivência desse tipo de pensamento (conservador) e força que ele possui nas sociedades brasileira e argentina, marcam o caráter colonial das mesmas.
Precisamos libertar nossas instituições desse ranço histórico, e essa é uma demanda para toda a américa latina.

sábado, 25 de setembro de 2010

Sobre as formas de reprodução das elites

A propósito de um evento no dia de hoje na minha cidade, a abertura de uma "cápsula do tempo" no meu antigo colégio, o marista Santa Maria. Pude observar como houve uma grande mobilização daqueles que hoje são advogados, médicos "doutores" da sociedade quase estamental curitibana. Para além dos propósitos de reencontro de amizades e pessoas, está também a reafirmação de valores e maneiras de pensar próprias de um colégio de elite, que ademais propõe uma formação católica.
Não me surpreenderia quantos de nós ex-alunos do colégio teremos filhos estudando nessa mesma instituição, reproduzindo os mesmos discursos e os mesmos valores de fato. Ainda que soe contraditória essa minha "auto-crítica" vejo-a na realidade como um exercício necessário. Assim como o fez, mais de uma vez, Jesus com a sua igreja (e em seu tempo) quando questionou instituições e leis, para proclamar a alteridade (ou o amor ao próximo) como ação e valor máximo de qualquer um que se propusesse a falar em seu nome. Ainda aguardo o dia em que essa mesma instituição que passei 13 anos da minha vida se proponha a maximizar a idéia de um amor ao próximo, ao invés de um "amor aos nossos".
Para isso trabalho juntamente com um grupo de pessoas, que na forma de uma pastoral respondemos e batalhamos os nossos próprios demônios, a acomodação do pensamento e a conformação com as estruturas de reprodução da desigualdade e da miséria no mundo.

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Me dicen el desaparecido...

Fazia um tempo que não escrevia, por uma série de motivos, o principal deles é que simplesmente precisava dar tempo ao tempo.

Tempo para me acostumar de vez, e tempo para circular por outras cidades além de San Miguel.
Falo pelos meus companheiros (e irmãos) de casa, quando penso que nossas vidas seguem no Brasil, mas para os que ficaram é como se faltasse uma peça no jogo. E quanto a nós, nos adaptamos e criamos novas rotinas, amigos e maneiras para disfarçar a saudade. Desde a última vez que escrevi muitas coisas aconteceram. Fomos num sábado a feira de Simóca que é um lugar que conserva muito das culturas regionais. A propósito de Simóca, quero aproveitar para divulgar a revista O viés da qual a Liana faz parte, e onde vocês encontrarão um trabalho jornalístico sério (o que convenhamos, é raro hoje em dia).

O site da revista contém um texto e fotos da Liana sobre a feira. O endereço é:

http://oviesrevista.wordpress.com

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Vocês devem ter notado a mudança na foto que estava atrás do título do blog, esse cactus nós encontramos em Amaicha del Valle, cidade onde o sol brilha por 360 dias do ano. Esse povoado se situa próximo às ruínas dos índios Quilmes. A foto foi tirada pelo Emílio, que além de ótimo engenheiro químico, amigo, é um bom fotógrafo! Nessa viagem de um fim de semana, fomos como em 20 pessoas, e aproveitamos para conhecer também a cidade turística de Tafí del Valle, esse sobrenome que as cidades tem por aqui não é por enfeite. De fato todas as cidades estão em vales gigantescos, cercados por montanhas maiores ainda, as quais se pode levar 2 horas no mínimo para chegar ao cume.
Foram belas viagens, mas no último fim de semana, aproveitei para visitar uma amiga que vive en Buenos Aires e que foi muito boa anfitriã me levando a uma festa e indo comigo na feira de San Telmo. Estando lá, pude sair com um amigo boliviano que é uma figura, e pude conhecer uma área da cidade chamada de Palermo Hollywood.

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O nível de festas agora abaixou, (para algo mais são). Estamos todos com parciais por fazer, que são os exames do meio do semestre e por isso não queremos fazer feio.
Ainda assim tem sido ótimo, a convivência na casa é cada dia melhor e a parceria só aumenta, estamos pensando em fazer uma festa do Brasil aqui em Tucumán, pra mostrar pros argentinos o que é música popular de qualidade! hehe

Saudações da Terra do Nunca!

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Os Brothers


Em sentido horário: Javi (de rosa), Emílio com o copo, Fernando, Eu, Rafa (agrônomo), Glauber, Nati, e Liana.

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

A "coisa" do intercâmbio

"Every understanding of another culture is an experiment to one's own" Roy Wagner



Estive pensando um pouco sobre o que significa estar aqui e sobre experiências que foram parecidas com o que tenho passado por aqui. Isso principalmente me faz pensar nos vários acampamentos da pastoral juvenil que eu participei até esse ano. A sensação de muita expectativa para saber com quem eu iria dividir as horas seguintes e como iria me relacionar com essas pessoas.

A "coisa" desse tipo de intercâmbio que eu e meus colegas experimentamos é ainda mais interessante porque não só mexe com os nossos costumes caseiros, mas mexe também com coisas da nossa cultura. Essas coisas, seriam habitos, linguagens e formas de se relacionar que fazem parte dos lugares de onde viemos. Dentro de casa convivemos com os vários "brasis", do sul, sudeste ou centro do país. Temos ainda um mexicano (o nosso querido Javi) que talvez esteja tendo uma experiência mais interessante.

Quando saímos de casa é uma Argentina inteira com a qual nos deparamos, pra quem pensa que os hermanos se resumem aos mulets e ao falar semelhante ao dos italianos se engana muito. Só no norte existem pelo menos, mais de dois tipos de etnias. Lidamos com a falta de feijão, a pouca e cara variedade de frutas e verduras, com jeitos de falar espanhol distintos e até gostos musicais que não fazem o menor sentido pra nós. Diferente das outras experiências de convívio que tive até aqui, temos que pensar todos os dias o que vamos comer, como e quando. Temos que abrir mão de algumas frescuras e outros exageros para que todos comam e fiquem bem.

Passando por isso, fica mais ou menos claro porque as imunidades baixam quando estamos fora de casa. Ao mesmo tempo tudo isso faz pensar como é importante entrar em contato com outras culturas, e de vez em quando abraçar desconhecidos, como se fossem seus melhores amigos por compartilharem de mínimas coisas em comum. Talvez o fato de sermos humanos seja o suficiente.
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Tomamos hoje a primeira bronca oficial por causa das festas, e pretendemos dar uma segurada mesmo. Ontem comemos no almoço um feijãozinho que revigorou todo mundo. E a viagem do fim de semana ficou para a outra semana por incompatibilidade de horários. Vamos no sábado à feira de Simoca, que parece ser bem interessante.

Saudações Tucumanas

sábado, 21 de agosto de 2010

Segundas impressões e a nova rotina


Salve! Salve!

Caros, tardo mas não falho. Estive com muitas coisas para fazer, e acabei não tendo tempo para postar aqui.
Terminei o relatório da pesquisa sobre os estudos africanos e agora posso me concentrar mais nas tarefas tucumanas. Escrevo desde um café, que é também uma biblioteca e onde ocorrem shows de tango. Um lugar muito interessante, neste momento estão tocando canções à la Mercedes Sosa, com uma pegada meio indígena.

Tenho muito o que contar então serei sistemático e começarei com as mudanças que ocorreram na casa.

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No outro post disse que estávamos em dúvida se íamos ficar na casa ou não, pois agora já não há mais dúvidas, ficaremos no departamiento de la 9 de julio, 280, 10o piso. A casa agora está cheia, antes estavam somente eu, a Natália e o Fernandão. A Liana, que faz jornalismo na UFSM chegou no último fim de semana. O Emílio, de Minas Gerais , estuda engenharia química na USP, e o Javier (vulgo Javi) que veio do México e faz Odonto aqui. Essa foi a primeira "leva" que já mudou a rotina da casa. As festas foram aumentando e o pessoal que tava na outra casa de brasileiros que está na rua Sarmiento, também chegaram nessa semana. A coisa já tava boa antes, depois que eles chegaram ficou ótima.

As festas aqui começam as duas da manhã, e acabam, pasmem, às 4! Sim muito estranho. Mas fazer o que né! hehe

Na segunda leva de brazucas da casa, chegaram os temperos que faltavam pra coisa ficar muy linda (como diriam os assistentes da Secretaria de Relações Internacionais). Glauber (não o Rocha) estudante de cinema da USP, protagonizou o primeiro aniversário da casa, e trouxe seu violão pra engrossar o caldo musical. Depois chegou o Rafa, o aventureiro (ou sem noção) que estava vindo desde Salta (que é o outro estado do norte argentino) em bicicleta com mais dois amigos, e chegou com histórias malucas e a bela expressão "coisa rica"que pretendo integrar ao meu vocabulário, pela boa vibração que traz. (??) hehe

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Assim como a casa foi se enchendo tive as primeiras aulas durante essa semana. Irei fazer duas matérias (já que parece que aqui o bixo pega em termos de carga de leitura), uma se chama História Latinoamericana 2 (período das independências) e a outra, Sociedades, território e dinâmicas culturais andinas. A segunda matéria só começará amanhã, mas a outra me pareceu muito boa, a professora Gabriela Tío Vallejo se mostrou muito solícita e disposta a me ajudar em qualquer coisa.

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Desde que cheguei aqui fizemos muitas festas e tal, mas tem algumas coisas em Tucumán que podem assustar qualquer ser humano. A quantidade de pedintes e crianças em condições subhumanas é altíssima, e da forma como vejo acaba sendo uma marca registrada do capitalismo, tanto em países periféricos como em países dos centros de poder. Nenhum sistema poderia ter elevado tanto a qualidade de vida de poucos e ter retirado as mínimas condições de dignidade de tantos, como o sistema capitalista. E assim nós vamos nos acostumando a conviver com a maravilha e o absurdo ao mesmo tempo.

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A saudade dos meus amigos e das pessoas que eu amo, talvez não seja tão evidente para quem me conheceu aqui. Mas em cada história contada, cada gesto e cada coisa que faço, levo um pouco dessas pessoas e levarei comigo um pouco dos meus 7 companheiros.

No próximo fim de semana faremos a primeira viagem juntos, vamos ver como saem as coisas. Imagino, pela primeira impressão que será tudo muito tranquilo.

Obs.: Na foto, a vista do pôr-do-sol meu apartamento.

terça-feira, 10 de agosto de 2010

De Córdoba a Tucumán

Caros Amigos e leitores

Esse e os posts seguintes serão histórias que vivi e coisas que aconteceram comigo durante o meu intercâmbio. Ou seja ainda estão acontecendo...
Escrevo de um café próximo ao meu apartamento, no centro da cidade de San Miguel de Tucumán, é o meu segundo dia aqui. A cidade apesar de ser pequena (em relação a cidade onde nasci, Curitiba) é muito movimentada. Já faz uns quatro dias que eu estou na Argentina, passei um fim de semana em uma das maiores cidades do país que se chama Córdoba. Essa é uma bela cidade, lá fiquei na casa da Marisa, uma amiga da minha mãe muito gente fina (e fina tbm). Junto com ela estavam as suas duas filhas (Denise a mais velha, e Pilar), duas meninas muito queridas, principalmente a mais nova! Além delas havia uma holandesa chamada Samantha que era bem parceira.
Cheguei de madrugada então fui direto pra cama , pois estava exausto. Quando acordei (ao meio dia) fomos tomar café da manhã na cozinha (eu e as meninas). O café na Argentina é em alguns pontos diferentes do Brasil, além do café que é mais fraco (mas da pra aguentar), eles comem uns crossaints melados que chamam de media lunas , ou meia-luas heheh. Que é exatamente o que estou comendo agora.
Bom lá em Córdoba fui a alguns lugares e praças, e pela noite saimos (eu, a holandesa, uma amiga dela e uma americana que estava fazendo intercâmbio). Qualquer mente um pouco mais maliciosa, vai pensar que eu adorei a noite ao lado das minhas companheiras anglo-saxãs! E devo admitir a noite não foi ruim, mas aquelas meninas eram muito estranhas! Fora a Samantha, que estava fazendo um curso de espanhol e estava no último nível, as outras duas realmente eram muito estranhas (mais para zagueiros da seleção sub-17 de seus países). Mas ainda sim pude rir muito naquela noite, por alguns motivos óbvios. Se em Cambouriú, a presença mínima de mulets ( a parte da nuca onde findam os cabelos masculinos), nos causa qualquer estranhamento, na balada (ou boliche) cordobeza, a coisa é motivo de histeria interna, já que eu era minoria né!
Enfim as argentinas apesar de estranhas, não deixam de ter o seu charme. A melhor hora da noite, foi quando um baixinho que bailava o reggaeton, se encostou na amiga da Samantha, um loirão maior que eu, e começou a rebolar. A cena foi de arrancar o cabelo.

Sim foi uma bela estadia em Córdoba, principalmente pela Pili (Pilar), uma gracinha de menina, que eu poderia chamar de muy amable, outra experiência interessante é o assado ou churrasco argentino, que é quase a mesma coisa que o nosso...

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Depois de uma viagem de quase 10 horas de ônibus, cheguei em San Miguel, fui ajudado e recepcionado pela minha amiga Rocio, que no semestre passado estava em Curitiba fazendo intercâmbio. Eu disse ajudado pois levava uma mala de 32 quilos, outra de 15, e além disso o meu violão e uma mochila bem pesada. Saímos da Rodoviária, que é junto com um shopping e fomos até a rua para pedir um taxi. Chegamos ao prédio onde estávam os colegas que iriam dormir comigo tentamos tocar o interfone uma vez e ninguém respondeu, na segunda tentativa atendeu a Natália (que faz enfermagem na Ufscar) . Subimos e eu a conheci pessoalmente, junto com Fernando ( da economia da Unesp).
A situação do apê (como eu já disse aos meus colegas) lembra aquela música-poema que Vinícius muito habilmente fez, "Era uma casa muito engraçada, não tinha teto, não tinha nada..." O que quero dizer é que realmente a sala do apartamento era só poeira, com uma mesa de plástico, mais empoeirada ainda, e um colchão de sofá. A Rocio ficou abismada na mesma hora. E como a Natália e o Fernando estavam indo reclamar com o pessoal da Universidade bem na hora que eu tinha chego, então resolvi ir junto e levar a Rocio, já que ela era daqui e já tinha feito o intercâmbio. Depois de muita conversa, além de fazermos nossos registros, fizemos uma lista de coisas que eles deveriam providênciar, até porque a Natália já estava muito nervosa com a situação (o apê não tinha calefação nem aquecedores, além disso só possuia alguns jogos de cama incompletos...futuramente ele irá receber 8 pessoas). Agora no apartamento, estamos nós, eu , a Natália e o Fernando, e mais dois alunos que são de outro programa, Gabriel (arquitetura Ufmg) e Daniela (boliviana, que tá fazendo medicina).

Talvez, a primeira grande lição é que não é fácil entrar em furadas desse nível, principalmente quando você não conhece bem as pessoas que estão junto. Tenho tentado (como costumo fazer) criar um clima mais tranquilo na casa, já comprei umas cervejas e vinho, e descobri que o Fernando sabe tocar violão e pandeiro assim como eu, dividimos além do quarto as mesmas visões ideológicas, o que facilita muito a convivência . Hoje soubemos que eles querem nos levar para outro apartamento, ou casa, que fica bem mais longe da universidade do que essa....

Fiquem atentos para os próximos capítulos da novela Perdidos em Tucumán...

Obs.: A inspiração para escrever essas experiências nessa forma vem dos emails que recebi de um amigo que fez um mestrado na Italia, e deveras me divertiu e fez da saudade (presença constante) uma coisa não tão pesada quanto costuma ser. Devo dizer que apesar dessas dificuldades, a cidade me parece muito simpática e as pessoas muito interessantes. Uma das matérias que farei aqui será História da América Latina (período das independências). Já diria uma música da banda H2O : no one said it was gonna be easy, I`m not afraid to try...

Saudações Tucumanas!

quarta-feira, 21 de julho de 2010

Primeiras quebras, novas e velhas perspectivas


As primeiras mudanças no meu dia-a-dia (ainda no Brasil), estão ocorrendo. A primeira e maior de todas, deixei meu estágio no Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano, e assim meu cotidiano de números, preenchimento e análise de dados se transformou de uma hora para outra. Foi saindo de lá que eu percebi o quanto tinha aprendido ali, e o quanto trabalhar me fez bem. Além de ter uma rotina, que me obrigava levantar da cama mesmo se não houvesse aula. Mudei muito dos meu hábitos pequeno-burgueses através dessa experiência.

Para além disso, o contato com os problemas de meus colegas, em geral pessoas extraordinárias, servidores públicos e burocrátas dos mais diversos escalões. aprendi ainda nessa caminhada, que o Estado burguês, por mais cruel que seja, é feito e pensado por seres humanos de valores dotados de alteridade. Seriam talvez vítimas, atores dessa racionalização muito bem descrita por Max Weber.


Nesses dias ainda, terminei de ler um dos melhores livros que já li, e ao mesmo tempo um dos mais longos. A obra de Gabriel Garcia Marques, Cién años de soledad. Uma novela latinoamericana que de forma genial descreve a ascendência e o declínio de um legado familiar. O caráter fantástico da obra, as descrições e comparações a coisas que só existem no imaginário humano, me permitiu uma outra perspectiva sobre a compreensão do mundo. Algo que talvez os marxistas e tampouco Marx(apesar de na sua maioria serem autores muito completos), tenham percebido, ou tenham dado menor importância. Esse valor de troca imaginário ou a importância que os símbolos possuem no nosso dia-a-dia, se mostra para mim uma chave do entendimento dos comportamentos e ações coletivas e individuais da sociedade.

Enquanto alguns creêm na lei ou na idéia de justiça que está imbricada nos artigos e incisos de um código, outros pelos mesmos valores, justificam ações completamente contrárias em termos materiais. Há ainda aqueles que se valem desses mesmos valores para justificar um planejamento urbano e social técnico, supostamente desprovido de qualquer carga ideológica.


Compreender os sentidos das ações é tal qual Cortázar, desvendar quem são os cronópios e famas de uma dada situação. Sem deixar de problematizar os nossos próprios pressupostos é claro. Depois do surgimento da sociologia reflexiva de Pierre Bourdieu (influenciado de certa forma pela filosofia da linguagem) a localização da fala se tornou algo necessário. Nós, pensadores do sul (e eu sem modéstia "acho" que posso me afirmar nesse grupo), não precisamos de maneira alguma, contrariando Boaventura de Souza Santos, renunciar aos paradigmas modernos. Estes que por bem ou por mal, ainda delimitam e modelam nosso pensamento. Devemos sim, escancarar os sentidos de nossas análises e dialogar com outras racionalidades e valorizar novas formas de pensamento. Do contrário, acabaremos como a cidade dos espelhismos de Garcia Marques, afundados pela mesma estirpe que nos criou e relegados ao destino cantado por sabedorias ciganas que considerávamos inúteis, exóticas ou irrelevantes.

sábado, 17 de julho de 2010

Sobre as possibilidades do futuro e as mudanças no meu presente


Algumas mudanças no blog foram feitas de acordo com os planos e passos que eu me fixo no momento atual. O mês de junho foi ao mesmo tempo muito corrido e muito produtivo, enquanto sentei por duas semanas para escrever artigos e trabalhos para a faculdade, pensava no programa de intercâmbio, o qual eu tinha me inscrito quais seriam as possibilidades e consequências de eu ser selecionado para tal programa.

Daqui a algumas semanas estarei escrevendo da cidadde de San Miguel de Tucumán no norte da Argentina, e tentarei contar neste espaço um pouco do meu dia-a-dia lá. Apesar de ter mais motivos para ficar do que para ir, seu que essa é uma oportunidade única. Como brasileiro, latino-americano, a inserção numa cidade situada em um país hispanoparlante, numa região em que já habitaram povos quechuas é extremamente importante. Estando lá procurarei também conhecer países que estão próximos como a Bolívia e o Chile.


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Nos últimos dias tenho começado a preparação para essa viagem, tanto psicologica quanto espiritual e física. Tenho procurado estar com meus amigos e minha namorada, ainda que isso às vezes me doa, sei que um semestre pode passar muito rápido. Alguns dos meus melhores amigos ainda estão voltando de suas viagens e o tempo será pouco para vê-los. Sinto também que essa viagem tão esperada por mim durante muito tempo, me apresentará um novo mundo, ou o mesmo mundo do qual faço parte mas o qual a minha visão ainda não alcança.

A possibilidade de viver em um lugar onde quase não conheço ninguém é ao mesmo tempo um desejo e um desafio para mim. Não sei se bem ou mal, sei sim, que isso me fará diferente.
Na foto: A sede do Governo da Provincia de Tucumán.

sábado, 3 de julho de 2010

A copa do mundo da Fifa

Em meio a trabalhos e jogos da copa do mundo, algumas coisas me passam na cabeça e levam a algumas conclusões. A lastimável derrota da seleção brasileira me deixou realmente atordoado, mas ainda assim tinham vezes que parecia completamente previsível o desfecho real dessa história. Uma seleção sem brilho, da qual os jornalistas (pra garantir o ganha-pão) não perdiam a oportunidade de exaltar e ao mesmo tempo entrar em choque com um "Michael Dunga", sobretudo os exclusivos da globo. A seleção eficiente, sim eficiente tinha mais "atores" que "agentes" no sentido social, e mais "atores" que jogadores no sentido prático. A cada 5 minutos um jogador estava fingindo que jogava na tevê, pra vender algum produto. E em outros dias, eram 90 minutos de puro fingimento.

Não estou menosprezando o trabalho feito por essas pessoas, mas para mim foi realmente decepcionante ver a palavra "comprometimento"perder o seu valor. Fora isso, a copa do mundo da FIFA, é mais a copa das marcas, nike, adidas, puma, mcdonalds, coca-cola, hyundai ...fora os patrocinadores oficiais das seleções. Alguns , como eu mesmo, se iludem com a perspectiva de vitória de países da peiriferia do capitalismo, e projetam uma suposta vitória dos oprimidos da história. E no fim se desiludem com as supresas inevitáveis das partidas de futebol.

Um dia desses eu fui abordado por um rapaz, que com o fim da campanha brasileira tinha gasto a toa o último dinheiro que tinha para tentar fazer mais dinheiro, um ex-presidiário tentando se "reintegrar a sociedade".
Esses são os panoramas, de uma copa que nega o racismo pra poder se alimentar e alimentar um sistema que é muito mais onipresente do que nós imaginamos.
Gostar de futebol não pode significar nos entregarmos às falacias de um mundo completamente anti-desportivo...

terça-feira, 1 de junho de 2010

Cem anos de solidão latino-americana


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O fim do mês das mães me deixa uma sensação de renovação. Me deu um ano a mais de vida, e levou a minha querida abuela (avó em espanhol). É nisso que tenho pensado a muito tempo, como descrever e escrever sobre a vida dessa mulher, que para mim é uma metáfora tal qual a de Garcia Marques na belíssima obra em que descreve entre outros a trajetória de uma família latino-americana. Minha avó, mãe do meu pai, vivia com meus primos em Porto Rico, mas ela era da República Dominicana. Sua trajetória descreve a vida de uma mulher batalhadora, mãe solteira de muitos filhos, mãe dos seus netos também, e ainda de uma mulher negra no capitalismo. Para alguns essa última informação talvez não represente nada, para outros talvez, seja mais fácil se solidarizar com o significante histórico que isso representa.

Além de ser para mim um exemplo de amor, ela é um exemplo de luta e religiosidade. Digo isso porque as esferas da política e da religião não estão separadas (ao meu ver, e em oposição ao clássico da sociologia Max Weber e sua visão neokantiana). Mais de uma vez minha avó demonstrou que sua disciplina se fez não só por sua condição socioeconômica, mas pela fé que tinha numa bonança futura. Meu pai e meu tio são exemplos de seu amor, que muitas vezes foi repreensivo para evitar decepções futuras. O político aí se dá na siginificação que sua trajetória tem, o que produziu socialmente. Ainda que tenha ido em condições precárias de vida, tinha uma postura de realeza e sabedoria até os últimos dias, e até seus últimos dias expressou sua fé, como uma Ave Maria Cheia de Graça.

Uma Maria da realidade latina, uma mãe de muitos filhos, e mulher de muitos homens, mas íntegra no seu amor e na sua fé. Ferida pelas ilusões de um sistema que a prendeu a condições de classe e que pela sua cor herdou a persistência do continente africano. Persitência daqueles que, estando na África ou na América do Sul , insistem em sorrir e continuar a lutar.


Fica o meu lamento pela morte, e agradecimento pela vida de Altagracia Lacay.
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sábado, 22 de maio de 2010

Dizem que ela existe pra ajudar...

Quanto e o que vale uma farda?

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Lá estava eu após um jogo de futebol com alguns amigos, levando um colega pra casa. Minha namorada queria comer um cachorro quente, então paramos em uma barraca em uma rua bem movimentada, e por acaso havia uma vaga bem à frente da barraca. Quando parei ouvi alguns carros buzinarem, perguntei ainda para meu amigo se havia alguma coisa errada com o carro e ele negou. Ao sair do carro, um policial me aborda com a seguinte frase:"Você tem carteira de motorista?" e eu respondi "Sim. Porquê?", e aí ele explodiu " Você não tá vendo que o carro tá fora da linha??" e aí eu disse "Ah, não tinha visto..." e ele "Então vá arrumar!" e eu enfim arrumei o carro.
O olhar de ódio que aquele homem fardado me desferiu, me deixou extremamente nervoso na hora. Porque ele tinha de ser tão enfático na sua autoridade? O fato de eu estar de moletom (blusa e calça) e gorro tinha algo a ver com isso. E depois ele se afastou como se eu não tivesse tomado uma bronca de um sujeito que eu não conheço por um motivo ridículo. Imaginei que se eu fosse um favelado ou um mendigo, a coisa seria muito pior! Abuso de autoridade talvez? Polícia para quem precisa de polícia...

terça-feira, 18 de maio de 2010

O instinto coletivo e a cultura popular


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Tive a oportunidade de presenciar nesse fim de semana uma apresentação de Boi de Mamão, em Florianópolis, essa é uma dança popular da região litorânea de Santa Catarina, na qual se representa a morte e ressureição de um boi. O mais interessante, é que eu vi essa apresentação na Associação do Bairro Pantanal, no evento de Alusão a Abolição feita pelo grupo de capoeira Angola Palmares, logo após uma feijoada que foi servida no mesmo evento. Esses momentos foram muito interessantes pra mim (como sociólogo) pois me permitiram experimentar um espaço de diálogo intenso entre culturas populares.


De um lado a capoeira como a luta de escravos libertos e não-libertos (no filme "Besouro" está retratada a história de um dos maiores capoeiristas do Brasil, logo após a Lei Áurea ser sancionada), que depois foi chamada de dança para enganar aqueles que a consideravam um crime. E de outro o Boi-de-Mamão como a expressão das relações presentes no dia-a-dia, e no imaginário do sertanejo e que são também expressão da mescla cultural entre portugueses e indigenas(povos autóctones), uma vez que os animais tinham papeís importantes na encenação, e no entanto se sabe que essa idéia de encenar histórias era muito comum nas procissões portuguesas. Foi um belo fechamento para um fim de semana no qual os vários sambas que eu cantei e toquei tiveram um significado especial para mim (como sempre o têm) que é a forma de protestar e louvar memórias e culturas que se originaram dos contatos entre africanos, portugueses e indios. E é claro privilegiar aquelas culturas que se chama de mais "rústicas" e que na verdade são incompreensíveis a olhares ocidentais.

O Samba, a Capoeira e o Boi-de-Mamão são não só formas de expressão, como a expressão de diferentes formas de pensar, "alter paradigmas" ou paradigmas do outro, eu diria. São formas de resistência aos centros de poder, que produzem conhecimentos compartimentalizados e ao mesmo tempo individualizantes.

Gog - um poeta da periferia

Pra aqueles que só conhecem Racionais ou Sabotagem, um grande poeta, sonhador de pés no chão o qual eu realmente admiro e indico. É a cara do rap nacional com uma pegada mais madura.

quinta-feira, 6 de maio de 2010

Que a arte nos aponte uma resposta...

... mesmo que ela não saiba.

Inspirado por esse trecho de um poema de Ferreira Gullar, eu busquei o samba, forma de arte com a qual mais me indentifico, antes Cartola e agora, enquanto escrevo, Lupicínio Rodrigues. O que me mais me encanta nessas músicas é como coisas tristes podem ser tão bonitas. Músicas de um tempo onde os sentimentos criavam raízes nas pessoas, e essas raízes, laços profundos entre amantes. Laços que quando rompidos, geravam um estado de tristeza tão verdadeiro e profundo e ao mesmo tempo tão característico de uma música que tem sua origem nas senzalas, e a palavra saudade que marca todo um gênero musical. Não que eu esteja triste, mas como sempre em dúvida sobre as coisas da minha vida, e todavia tão certo do prazer que essa música me dá, e da identificação com o modo de vida que ela prega, que o que não faz sentido nunca, são as minhas origens. Um rapaz de classe média, uma bossa nova praticamente, se não fossem meus parentes dominicanos e porto-riquenhos, de classe média-baixa. Ritmos africanos que respiram no meu sangue batem junto com o meu coração.
Essa arte que me diz, canta a saudade dos tempos não vividos, mas canta também novos tempos numa esperança cristã, num paradigma alternativo.

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Outsiders

out of step

Ultimamente tenho pensado muito sobre o meu curso e o que eu e meus colegas temos em comum. Encontrei alguns aspectos interessantes e vou compartilhá-los com vocês.

No meu grupo de amigos mais próximos, a heterogeneidade é grande em termos ideológicos, um é extrema direita, um é comunista (não de esquerda), eu sou de esquerda, outro de direita, e por fim tem um que se considera “centro cagão”. O que diabos trouxe esse pessoal tão diferente, para um mesmo curso e os levou a se tornarem grandes amigos? Pensei muito e conversei até com alguns calouros e veteranos sobre como eles eram  em suas ocupações anteriores ao curso. Eu, por exemplo, apesar de ser um  sujeito muito coeso com a instituição onde eu estudava, já não suportava os diálogos e a maior parte das pessoas que estudavam comigo. Não era uma questão de briga, ou ódio, aparte de o Terceiro ano ser estressante pelo vestibular, eu não me sentia parte daquele grupo (como um todo). Portanto entrei no curso disfarçando minhas raízes pequeno-burguesas, com medo do que meus colegas fossem pensar ou dizer, e falar sobre religião então nem pensar…

Um calouro que tem origens parecidas com as minhas (colégio de classe média alta católico), parece que reproduziu as mesmas atitudes que eu quando conversávamos sobre quem e como ele era antes. Ele me contou também sobre a sua insatifação com o lugar de onde tinha vindo, e com as pessoas com as quais convivía. A sensação de estar deslocado com a sua realidade parece um fator comum a todos que entram no curso, estrangeiros em sua própria terra, falando uma língua que ninguém entende. 

Essa sensação nos acompanha o curso inteiro, ela faz parte do exercício da sociologia, desconfiar não só das respostas, mas principalmente das perguntas.  Quem fica, aprende que isso é um instrumento, quem sai do curso, ou não consegue viver com as interrogações, ou não se contenta com as poucas respostas e desacredita do social. E ainda tem aqueles que ficam, ignoram as perguntas e fazem pseudo-ciência.

terça-feira, 6 de abril de 2010

Um banho na copa e nas olimpíadas

Quem tem acompanhado os jornais nos últimos dias deve ter visto (nem que seja por cima) o fato absurdo : Mais de 81 mortos pelos alagamentos no Rio de Janeiro...
Talvez piores são as declarações seguintes ao ocorrido, do governador Sérgio Cabral e do prefeito Eduardo Paes, que ou culpam as "ocupações irregulares" (no caso de Cabral) ou descontam na situação anômala. E ainda pior é a partir desse fato, Cabral encontrar alguma justificativa para levantar muros em volta das favelas (quem sabe assim mata todo mundo de uma vez só, todos afogados). O problema, imagino que todos sabemos, está no planejamento urbano da cidade, que desde a revolta da vacina (provocada por medidas higienistas do governo da época), produziu uma expansão residencial horizontal para os morros. Expansão essa que ocorre e se multiplica até hoje. A primeira vista, poderíamos dizer que as ocupações irregulares são consequências de dois processos, o êxodo rural e a falta de preparo das autoridades para lidarem com o mesmo. Com que tipo de envergadura moral, os governantes de uma metrópole (que futuramente abrigará eventos como uma Copa do Mundo e uma Olimpíada) se dão o direito de cobrarem de cidadãos que vem de outros municípios, para buscar melhores condições de vida, o conhecimento sobre qual o melhor lugar para estes construírem suas casas?
Que tipo de governantes são esses, que privilegiam as construções de estádios ao invés de buscarem regularizar a situação dessa maioria que vive em aglomerados subnormais (favela na linguagem técnica)?
Quanto dinheiro está sendo gasto na publicidade para esses eventos?
Quem sai ganhando com a Copa?
São os cidadãos?
Sob quais condições?

É, essa chuva deu um banho na Copa... Deu até pra imaginar a sujeira de baixo de tudo isso.

Obs: Ouvir Suburbio - Chico Buarque
http://www.youtube.com/watch?v=RlHVo6LNKLg&feature=related

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Yo vengo ofrecer mi corazón (fito paez)

Música deste cantor do rock argentino, que foi interpretada entre outros, pela ainda mais importante Mercedes Sosa. Uma jóia poética, cheia de terra e sangue latinoamericano.

http://www.youtube.com/watch?v=AAQ9UkuHnko&feature=related

¿Quién dijo que todo está perdido?
yo vengo a ofrecer mi corazón,
tanta sangre que se llevó el río,
yo vengo a ofrecer mi corazón.

No será tan fácil, ya sé qué pasa,
no será tan simple como pensaba,
como abrir el pecho y sacar el alma,
una cuchillada del amor.

Luna de los pobres siempre abierta,
yo vengo a ofrecer mi corazón,
como un documento inalterable
yo vengo a ofrecer mi corazón.

Y uniré las puntas de un mismo lazo,
y me iré tranquilo, me iré despacio,
y te daré todo, y me darás algo,
algo que me alivie un poco más.

Cuando no haya nadie cerca o lejos,
yo vengo a ofrecer mi corazón.
cuando los satélites no alcancen,
yo vengo a ofrecer mi corazón.

Y hablo de países y de esperanzas,
hablo por la vida, hablo por la nada,
hablo de cambiar ésta, nuestra casa,
de cambiarla por cambiar, nomás.

¿Quién dijo que todo está perdido?
yo vengo a ofrecer mi corazón.

domingo, 4 de abril de 2010

A Ressureição

Mas o que diabos significa ressureição?

Talvez nem tanto a ver com diabos, mas a leitura de um bom dicionário (houaiss) nos traz uma boa idéia do que isso possa ser. Reerguer-se, reanimar-se, ressurgir, recomeçar por fim relevantar-se. Ultimamente é isso que me falta. Não que faltem significados na minha vida, mas a rotina me estressa e me consome a tal ponto que as poucas coisas que fazem sentido são os intervalos dos meus compromissos e das minhas responsabilidades. A primeira coisa que se deve perguntar a uma pessoa que resolva fazer ciências sociais, é como ela lida com crises de identidade, e segundo se ela se identifica com alguma coisa. O exercício de questionar aquilo que dá sentido à nossa vida nos faz maiores. Conviver com esse exercício é o maior desafio. Isso exige ressureições semanais, talvez por isso eu queria tanto viajar (ou talvez por isso que quando viajo quero esquecer de tudo). Tem muita gente que não dá muita importância para isso, e tem aqueles que nem notam isso acontecer, tem também os que não aguentam, e saem do curso sem saber exatamente porquê...
Vocês podem perceber que as minhas palavras se dirigem a um curso que é cheio de ateus, mas que pasmen, é cheio também de cristãos (fato digno de se estudado). Faço isso porque sou parte deste último grupo, e me surpreende que meus colegas tratem conceitos e apreensões sociológicas de maneira tão abstrata, como se esses não contivessem discursos políticos.
A minha ressureição diária se dá através de meus amigos e de minha namorada, mas principalmente, quando encontro sentido para compreender e produzir novas visões acerca do social é que encontro luz . Estudar o social é sim questionar dogmas e estruturas que nos são impostas de formas subliminares ou não, é principalmente o que fazemos com o conhecimento que dá o sentido último deste, independente de sermos ateus, cristãos ou muçulmanos. Salve o renovar de esperanças...

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Queira ou não queira terminou o carnaval

Voltar a trabalhar nunca é fácil. Por melhores que sejam os companheiros de trabalho. O pior é começar a lembrar das coisas que ficaram pela metade, acho que esses são os momentos mais assustadores da rotina, quando as oportunidades e responsabilidades ficam embaralhadas. Saber colocar cada uma dessas em seu devido lugar é uma arte.
Por isso nesses momentos a presença de amigos (e namoradas porque não?) é de muita ajuda, justamente porque esses nos ajudam a relaxar e buscar soluções mais simples para esses problemas inevitáveis do cotidiano.

Eu por exemplo, comecei no meu trabalho, a montagem de uma tabela que compare a situação habitacional da cidade nas décadas de 70, 80, 90 e 2000. Além disso tenho a pesquisa acerca dos Estudos Africanos no Brasil e a relação destes com a independência dos países africanos de língua portuguesa. E ainda, estou ajudando meu melhor amigo a organizar a festa de despedida dele, na qual eu e ele vamos tocar um sambinha pro pessoal. Essas coisas são aquilo que eu tenho que fazer, mas sem considerar os afazeres caseiros que tomam tempo e disposição, e em algumas casas, podem ser motivo para brigas.
Mas no final do dia o que (pelo menos pra mim) não pode faltar, é aquela cervejinha despretenciosa com alguns amigos, regada a um bate-papo sobre banalidades. Pelo modo que vejo, não é só o trabalho que dignifica o homem.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Life Less Frightening

Em tempos de desastres naturais, é comum que as pessoas se perguntem o que deve nortear as possíveis soluções. Pensei em várias formas de comentar de alguma forma o desastre do Haiti, mas a soma das desigualdades é sempre a fórmula pra um quociente enorme de abusos à vida humana. Por isso gostaria de postar aqui a música Life Less Frightening, da banda Rise Against, que diz um pouco do que penso sobre a vida e o que se passou no país vizinho da República Dominicana.

Life Less Frightening

Suffering from something we're not sure of ina world there is no cure for
these lives we live test negative for happiness
flat line, no pulse, but eyes open
single file like soldiers on a mission
if there's no war outside our heads
Why are we losing?

I don't ask for much
Truth be told I settle for a life less frightening
A life less frightening (2x)

Hang me out to dry I'm soaking
with the sins of knowing
what went wrong, but doing nothing I still run
time again I have found myself stuttering
foundations pulled out from under me
this breath is wasted on them all
will someone aswer me?

(Chorus)

Is there a God tonight
up in the sky
or is it empty just like me?
a place where we can hide
I long to find
where you are all I see.
So blow a kiss goodbye then close your eyes
and tell me what you see?
a lifetime spent inside this dream of mine
Where you are all I see...

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Mãos livres

Na terra da "liberdade" as mãos estão sempre ocupadas, se você não está numa sala de estar com o controle da televisão na mão, está com as mãos num grande hamburguer. Na rua, muitas mãos tem cada uma o seu aparelho de música, quando dentro de estabelecimentos comerciais, as mãos, neste lugar não escapam sem tocar, carregar, muito ou pouco, dinheiro.
Em todo lugar vêem-se as mãos cheias, carregadas e ainda não se sabe porquê. As vezes elas vem ornamentadas com anéis e luvas, mas ainda assim não se entende qual o motivo dessas mãos terem tanto para carregar , levar consigo e o que será feito com isso. A verdade é que depois de tantos botões apertados, e tantas maçanetas giradas essas mãos se viam como escravas.
Essa escravidão, a maior e talvez a pior da terra da liberdade impedia as mãos de se pensarem e de criarem coisas verdadeiramente úteis. E ainda pior, a maior parte do tempo elas não podiam tocar outras iguais a ela, eram reféns do desamor e da tirania de seus donos. O contato que tanto desejavam, se resumia diariamente a meros e raros apertos de mãos.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Notícias da Terra do Tio Sam



Estive tirando umas férias de escrever. Não porque não aguentasse mais escrever, mas porque achei que deveria arejar um pouco minhas idéias. Estou agora, escrevendo da casa do meu tio Arturo que vive em New Jersey. Já faz algum tempo que eu estou aqui e tem sido uma boa experiência, gastei mais dinheiro do que nunca (comprando um laptop, com o suado dinheiro do estágio), encontrei com o professor que está orientando minha pesquisa e tive a oportunidade de conhecer algumas das universidades mais conhecidas na minha área.


Conheci antes de chegar aqui em New Jersey, a cidade de Bogotá na Colombia. Lá conheci um grande sociólogo (a meu ver) e amigo de meus pais chamado Victor Reyes Morris. Estudioso das questões urbanas e de conceitos clássicos das ciências sociais, como a anomia, este professor se mostrou um sujeito muito sensato. Ademais deste senhor muito interessante, fiquei encantado com a cidade de Bogotá, gostaria de ter passado mais tempo lá.


Para quem não sabe New Jersey está ao lado da ilha de Mannhatan, parte da cidade de New York. Esta, que com certeza é um dos lugares mais interessantes do mundo, e quase com certeza o lugar mais interessante dos Estados Unidos. Digo interessante, porque abriga uma gama de culturas tão diversas e ás vezes contraditórias, que parece uma utopia que se mantenha pacífica e se situe num país como os Estados Unidos. Algo que talvez seja parte da cultura do país e que junto com meu irmão constatei é que o individualismo, aqui parece que é o bem mais distribuído igualitariamente. Independente de raça, cor ou credo, as pessoas parecem estar dotadas de uma razão individualista que é coletiva e democrática, e talvez necessária para um lugar onde o sistema capitalista é extremamente desenvolvido. Esse desenvolvimento (é sempre bom lembrar) ocorre em detrimento da exploração de países subdesenvolvidos como o Haiti e costuma subjugar uma maioria através do trabalho e da crença no consumo e nas coisas materiais.


Não poderia deixar de falar das saudades que desde o começo da viagem me acompanham. A saudade do samba da palma da mão e da sola do pé. A saudade da morena que eu deixei, e dos amigos mais que fiéis. A saudade que é inerente à todo aquele que tem o sangue latino e por diversas razões vem para esse hemisfério frio, que cada vez mais tem um sotaque espanhol. Coisas que fazem parte de mim e que me fazem amar sempre e cada vez mais o lugar de onde eu saí.