sexta-feira, 30 de outubro de 2009

As rejeições religiosas e o mundo

Durante a tarde de hoje estive lendo um texto chamado "As rejeições religiosas do mundo" escrito por um dos pais da sociologia, Max Weber. Dentro das muitas discussões abordadas pelo autor uma em particular me chamou muito a atenção, a relação entre a religião e a esfera da política.No debate produzido pelo autor, que foi muito mais filosófico que sociológico muitas questões foram abordadas, e eu penso que uma das mais interessantes é em relação aos (d)efeitos que a moral religiosa pode trazer para o meio político.
Em vez de gastar palavras com o que já se sabe (ou não, para alguns) sobre o papel da Igreja católica na colonização e exploração das culturas africanas e latino-americanas, ou discorrer, como já fez Weber sobre como a moral protestante foi essencial para o estabelecimento do capitalismo como sistema econômico. Eu gostaria, ao invez disso de falar como a nossa querida imprensa fez uma literal "tempestade em copo d'água", depois do Lula ter falado que se Jesus fosse presidente no lugar dele faria aliança com Judas. Uma mera metáfora.
Dessa situação eu tiro dois comentários.

Como (futuro) cientista social, noto que nosso presidente (que não é santo mas não é pilantra), tem, ao contrário do que se diz, muito conhecimento do sistema político brasileiro, que não por acaso leva o nome de Presidencialismo de coalisão. O que significa que, se o presidente que é eleito não tiver uma boa base nas casas legislativas federais, terá enormes dificuldades para governar. Não obstante, teria de se aliar a alguns Judas para desenvolver seus projetos. Até aqui normal, algo feito por todos presidentes até então eleitos (exceto pelo Collor).

Ou como Cristão católico que sou, e muito humildemente me afirmo assim, discordaria das colocações de Dom Dimas (secretário-geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, CNBB), quando fala que Cristo não faria "alianças com fariseus". Não só o faria como o fez. Jesus chamou Judas para ser seu apóstolo, e sabia que ele o trairia. E ainda o perdoou pela traição antes de morrer. Na passagem que se encontra em Lucas,19,1-10, se conta uma outra situação em que Jesus acolhe Zaqueu (um cobrador de impostos) para o Reino dos Céus. Queira ou não queira, Dom Dimas, Jesus fez uma aliança com toda a humanidade(principalmente os fariseus de sua época) , e isso até Weber sabia, pois critica o sentido de universalidade do cristianismo.

Voltemos então a questão inicial. Nesse caso em específico a política sofreu pela apropriação da moral cristã pela mídia. Uma crítica contundente ao comentário, seria que talvez essa provável situação (Jesus presidente) não justificasse um descaso com as linhas ideológicas (ou retóricas) de cada partido, ou que esse exemplo simplesmente não convém (Lula não é Jesus! ). O que veio em seguida foi uma série de comentários desnecessários e despolitizados de um bispo, que pelo visto não sabe muito sobre o sistema político brasileiro...
A pergunta então é: Com que moral Dom Dimas está falando da política?

Obs: Atenção para o sentido da moral nesse caso.

domingo, 18 de outubro de 2009

Pequeno-burguesismos parte 2

Muito atento, já sabia alguns nomes, mas não sabia exatamente distingüir um artista de outro. Jazz era uma das músicas essenciais para se entender o rock que ele tanto gostava. Enfim escolheu e viu que tinha feito uma boa escolha, pelo preço do cd e pelas poucas músicas que ouviu alí na hora.
Já a caminho de pagar o estacionamento do shopping, lembrou do fim de semana que passaría no assentamento do MST, sem ter de se preocupar quanto iria gastar para estacionar, com a balada de sábado ou com o seu cartão de crédito. Lembra que tudo isso não estaria acontecendo se ele e seu amigo tivessem se organizado melhor, "deixe quieto", ele pensa.

O termo "radical", vem de raiz , de algo que é profundo ou aprofundado até as suas origens. Pensar as coisas radicalmente é ir ao princípio que gerou tal ou qual problema. Pensava eu que deveria ir até o assentamento para discorrer sobre minhas pequeno-burguesisses entre os trabalhadores rurais sem terra. Mas a verdade é que o fato de eu nem chegar a ter ido ilustra muita coisa. A pequena-burguesia, essas pessoas meio ricas, meio cultas e completamente acomodadas, podem ser caracterizadas essencialmente pela expressão "deixe quieto".
Isso não significa, é claro, que as pessoas devem sair por aí resolvendo todos seus problemas até não tiverem mais energia para nada. A verdade é que não sabemos dialogar. Não sabemos e nem queremos.
Porque é o mais cômodo.
Talvez as grandes lutas por igualdade e liberdade, sejam na verdade, um emaranhado de pequenos diálogos, claros e sinceros.
Mais que a comodidade, a pequena burguesia é dotada de orgulhos-bestas.

Saudações aos diálogos radicais

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Pequeno-Burguesismos parte 1

Decidi. Vou colocar algumas coisas que ficaram por serem ditas do mês de setembro que de certa forma estão acontecendo ainda. Por isso um post em partes (também pela correria que tá a minha vida).

Setembro chuvoso. Sim Cê tem bruchov! (piadinha de mal gosto)

Mal gosto ou não esse fato acabou atrapalhando as atividades dedicadas ao mês dos transportes alternativos (leia-se bicicleta). E eu como um usuário destes me senti prejudicado em alguns dias desse mês. Enfim tantas lutas por uma vida melhor (para todos) e eu participo desta também. Só que a chuva sem querer colocou algumas interrogações na minha cabeça. E essas começaram a querer sair num dia bem chuvoso, mais especificamente dia 22 de setembro, também conhecido como o dia sem carro.
Foi um dia chuvoso como outro qualquer, deixei minha bike em casa e fui a pé pra aula e pro trabalho. Graças ao convite do meu grande amigo Artur, depois do trabalho fui ainda numa palestra de um teórico marxista... No caminho da palestra passei pela reitoria (ainda debaixo de chuva) e vi a concentração daqueles que estavam na marcha das bicicletas. Enquanto atravessava aquele mar de bicicletas, me perguntava, "será que esse pessoal não tem o que fazer? " e ao mesmo tempo me admirava a variedade de modelos de bicicletas e ciclistas, alguns dignos de menção: O esportista(que vê tudo aquilo como um treino divertido), o alternativo 1 (que não é tão alternativo, mas acha que tá contribuindo para evitar o efeito estufa, usa a bike como desculpa pois se pudesse teria um carro), o alternativo 2 (esse já está convicto da causa, é anarquista, anti-capitalista e contra todo tipo de preconceito, sua bike é equipada com bagageiro, amortecedor e cambio gringos) e o tipo estranho (que faz pairar uma duvida, quem é mais estranho a bike ou o dono?) .
Obviamente não eram todos que estavam ali que seguiam esses "modelos", eu mesmo se a chuva não estivesse caindo naquele momento, participaria numa boa da bicicletada. É uma reinvidicação legítima da minha classe social, um claro pequeno-burguesismo. Assim como o é ( e eu me coloco a disposição de ouvir quem quiser me provar o contrário) a ideologia anarquista. Muitos levam a sério a discussão das bicicletas e eu considero isso importante, porém mais importante ainda é levar a sério a questão da qualidade de vida dos "servos/escravos/proletários" do nosso dia-a-dia. O que me preocupa é a indolência na hora de resolver os problemas de quem tem menos formação e representação para a/na política. Talvez se a cada carro a menos na cidade nós tivéssemos mais pessoas da sociedade civil envolvidas na garantia dos direitos básicos em plenitude para todos, talvez não teríamos de saber que vidas estão tendo seu valor medido pelo calibre de uma bala. Eaí meus queridos, mediríamos a força e a abrangência do movimento das bicicletas, pelo número de chacinas que este evitaría.