quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

De carnavais e carnais

O mês de fevereiro não poderia terminar sem uma menção à maior festa da cultura brasileira, o carnaval.
Depois de várias experiências frustradas com essa festividade, eu vivi esse ano o mais próximo do que para mim seria o carnaval ideal. Cercado de amigos, cerveja, meninas bonitas e uma praia linda, a receita para uma diversão "bombástica".
Umas das coisas mais interessantes dessa festa é que ela é por essência extremamente democrática, já que nasceu nas ruas de uma Veneza ainda burguesa e se tornou na contemporaneidade, um espaço (muito raro) no qual o morro é aplaudido pela classe média alta, pelas suas belas morenas e seus habilidosos passistas.
Outra questão que fica clara nessa data é como a sexualidade deixa de ser um tabu para homens e mulheres. A cada máscara posta, há uma máscara caída, tudo pela diversão. Tudo que é "normalmente" condenado é moralmente justificável , afinal é carnaval, que aliás é , nada mais que carnal.
De fato no carnaval vemos coisas átipicas e as fantasias variam desde as que você pode vestir às que você pode tomar, cheirar ou fumar.E aí vai de cada um.

Fica agora a sensação de que o ano está realmente começando, trabalho, aulas, mais aulas, livros , o fim de semana e a fé numa vida melhor .
Que venha a rotina ...

domingo, 8 de fevereiro de 2009

A eternidade das palavras e dos sentimentos

Fica aqui meu agradecimento à Vinicius, por existir e por me ensinar a chorar em versos. E principalmente, pelo vasto tesouro literário que ele nos deixou. Só pra quem não conhece, um gostinho da triste beleza poética de Vinicius de Moraes.

O haver

Resta, acima de tudo, essa capacidade de ternura
Essa intimidade perfeita com o silêncio
Resta essa voz íntima pedindo perdão por tudo
– Perdoai-os! porque eles não têm culpa de ter nascido...

Resta esse antigo respeito pela noite, esse falar baixo
Essa mão que tateia antes de ter, esse medo
De ferir tocando, essa forte mão de homem
Cheia de mansidão para com tudo quanto existe.

Resta essa imobilidade, essa economia de gestos
Essa inércia cada vez maior diante do Infinito
Essa gagueira infantil de quem quer exprimir o inexprimível
Essa irredutível recusa à poesia não vivida.

Resta essa comunhão com os sons, esse sentimento
Da matéria em repouso, essa angústia da simultaneidade
Do tempo, essa lenta decomposição poética
Em busca de uma só vida, uma só morte, um só Vinicius.

Resta esse coração queimando como um círio
Numa catedral em ruínas, essa tristeza
Diante do cotidiano; ou essa súbita alegria
Ao ouvir passos na noite que se perdem sem história...

Resta essa vontade de chorar diante da beleza
Essa cólera em face da injustiça e do mal-entendido
Essa imensa piedade de si mesmo, essa imensa
Piedade de si mesmo e de sua força inútil.

Resta esse sentimento de infância subitamente desentranhado
De pequenos absurdos, essa capacidade
De rir à toa, esse ridículo desejo de ser útil
E essa coragem para comprometer-se sem necessidade.

Resta essa distração, essa disponibilidade, essa vagueza
De quem sabe que tudo já foi como será no vir-a-ser
E ao mesmo tempo essa vontade de servir, essa
Contemporaneidade com o amanhã dos que não tiveram ontem nem hoje.

Resta essa faculdade incoercível de sonhar
De transfigurar a realidade, dentro dessa incapacidade
De aceitá-la tal como é, e essa visão
Ampla dos acontecimentos, e essa impressionante

E desnecessária presciência, e essa memória anterior
De mundos inexistentes, e esse heroísmo
Estático, e essa pequenina luz indecifrável
A que às vezes os poetas dão o nome de esperança.

Resta esse desejo de sentir-se igual a todos
De refletir-se em olhares sem curiosidade e sem memória
Resta essa pobreza intrínseca, essa vaidade
De não querer ser príncipe senão do seu reino.

Resta esse diálogo cotidiano com a morte, essa curiosidade
Pelo momento a vir, quando, apressada
Ela virá me entreabrir a porta como uma velha amante
Mas recuará em véus ao ver-me junto à bem-amada...

Resta esse constante esforço para caminhar dentro do labirinto
Esse eterno levantar-se depois de cada queda
Essa busca de equilíbrio no fio da navalha
Essa terrível coragem diante do grande medo, e esse medo
Infantil de ter pequenas coragens.

domingo, 1 de fevereiro de 2009

As faces da palavra

O que é realmente a liberdade de expressão ? Será que ela se relaciona com a capacidade de se expressar ?Até onde vai essa liberdade ?
De fato , a expressão demanda espaço. Seja esse espaço físico, psicológico ou espiritual. Mas se expressar é algo essencialmente dialógico. Não é a toa que quando estamos conversando com alguém , dialogamos.

Eu pessoalmente, creio que não existe algo que seja mais humano que a expressão , o diálogo, seja ele dançado, falado, escrito, cantado. Essa "dialogicidade" humana porém, exige para a sua perfeita harmonia, o respeito ou a minima tolerância com o que difere. O conflito é naturalmente parte da expressão, como ação, e ele não pode perder seu caráter democrático que é o que justamente faz dele algo dialógico. A riqueza do diálogo reside no caráter construtivista que ele possui. Na sua capacidade de somar sem coptar.

O número de línguas que uma pessoa pode falar, os instrumentos que ela toca, os tipos de música, de danças, de caretas , enfim tudo que possa passar alguma mensagem. Isso é a expressão e ela é o fruto da inteligibilidade do hommo sapiens sapiens. Ela não se resume à vida, e tampouco a morte, logo, ela é nosso maior fardo.

*Dica de um bom disco de música brasileira : Lenine - O dia em que faremos contato